sexta-feira, 16 de março de 2012

Uma depressão mais, para as estatísticas, ou um caso de vida, revelador do estado da educação?

Há muito tempo que não andava por aqui, mas hoje voltou a fazer sentido.

Deixo a transcrição de um e-mail que me foi reenviado, relativo a uma história trágica.
Não deixem que o estado das coisas, que as dúvidas e sombras relativas ao presente e ao futuro vos leve para tão longe.

"Reenvio-vos esta carta da Sara. A mãe, Estefânia, foi minha colega de curso, assim como o Fidalgo.

Sei que a Estefânia era uma das pessoas que gostava do que fazia, isto deixa-nos muito que pensar.

A Sara é filha do Joaquim Fidalgo (jornalista e meu antigo colega na faculdade). A mãe (professora e também minha colega na faculdade) suicidou-se.

Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.

As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.

Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.

Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março.

Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci, o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.

A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.

Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.

De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver.

E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.

Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.

Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.

Sara Fidalgo

P.S. - Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor"

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Era da Passividade

...fruto da época, encontrei um texto muito antigo - do ano 2000 - do "Le Monde Diplomatique", traduzido para brasileiro (acordos ortográficos?) ...
Achei interessante e partilho-o convosco.

"Era da passividade

Cada vez mais associada à propaganda, a mídia mostra a vida social como uma sucessão de "grandes fatos", que o cidadão deve limitar-se a assistir. Consumo, logo existo! Esta é a máxima que parece resumir o nosso tempo

François Brune

Vez por outra ouvem-se recriminações "à inércia das pessoas". Como não se rebelam contra essa publicidade que os envenena, contra essas empresas que os pressionam, contra o desemprego que os afeta ou ameaça, contra essa mídia que falsifica as realidades do mundo? Por que tantos problemas privados não desembocam mais freqüentemente em protestos coletivos?

É que a educação para a passividade desarma os indivíduos continuamente, em todos os níveis. Da criança pequena ao empresário em vias de se aposentar, os modelos de adaptação e de submissão ao mundo tal como ele é asseguram a perenidade do "sistema", penetrando profundamente na interioridade do cidadão.

O lingüista Alain Bentolila relata uma experiência surpreendente. Uma publicidade contra o cigarro é apresentada a quarenta crianças, de quatro a cinco anos. A mensagem não poderia ser mais clara. Um adolescente oferece um cigarro a uma garota e ela o destrói dizendo: "um pouco de liberdade conquistada". Porém, à pergunta feita: "o que quer dizer esse filme, por que ele é passado na televisão?" trinta e oito crianças responderam: "isso quer dizer que cigarro é bom, é preciso fumar". O que expressa tal contra-senso? Demonstra simplesmente que a ideologia já está moldada no espírito da criança de cinco anos. Para ela não há dúvida: 1. É um filme curto, é transmitido entre os programas, logo é uma publicidade; 2. Nessa publicidade se fala de cigarros: logo, trata-se de um produto; 3. Se falamos de um produto em uma publicidade, só pode ser para falar bem dele. Logo, é bom fumar...

Se esse esquema é suficiente para modelar a percepção de um criança de cinco anos, o que dizer da imensa impregnação ideológica nos comerciais e nos filmes publicitários? É contínua a valorização de tudo o que é veiculado pela televisão, a ponto de os hipermercados colocarem a tarja "Como visto na tevê", tanto nos produtos, quanto nos seres humanos que aí se vendem. O mundo do consumo eufórico, onipresente, impõe-se a cada um como lugar natural da vida social e meio essencial para dar rédeas soltas à personalidade. Existir é consumir, eis tudo. Escolher uma marca é conferir-se uma identidade, como indica esta pequena antologia: "Meu creme, sou eu", "Meu Corsa, sou eu", "Em Duvernoy, eu sou mais eu", "Ser Kick, ou nada", "Ser Dim até o fim", "Se você não é Gémo, você se tornará ", sem esquecer o "clássico" do pensamento pessoal oferecido a todos "Seja diferente: pense Pepsi "... E eis que jornalistas fazem esta espantosa descoberta, em reportagem: "Para se ’vestir bem’ os jovens dos subúrbios adoram as marcas". Isso não passa de mais um exemplo banal da interiorização pelos dominados do modelo dominante.

Quero comprar como sou

Mas, escapam os adultos do mito do produto que confere identidade? Vejamos: em setembro de 1999, o grupo Camif lançou uma grande campanha nacional com slogans reveladores "Eu quero comprar como vivo", "Eu quero comprar como sou", "Eu quero comprar como penso"... Como é deliciosamente ambíguo esse "como" — que liga a vida, o ser e o pensamento ao consumo! Como esse "eu quero", afirmação da identidade através do produto comprado, é poderoso em termos de "comunicação"! Identifiquem-se, camaradas educadores! Cada um pode fazer esta simples experiência: observar por quinze minutos os títulos e slogans que pululam a cada semana na mais insignificante banca de jornais ou ponto de ônibus. Não é necessário critério para decifrar: a tirania do consumo explode a olhos vistos. Veja esta simples frase, enunciada por uma grande revista, em junho de 1999: "A felicidade é uma soma de pequenas felicidades." Essas pequenas felicidades são, precisamente, as pequenas compras. A felicidade reside, assim, numa soma. Problema: a felicidade está numa quantidade ou num sentido? Pergunta embaraçosa...

Mas, pode-se perguntar, esse modo de vida submisso não é violado pela invasão, nos microcosmos domésticos, de imagens de um mundo que se move, que nos interpela, e que as mídias nos reenviam em face através da TV? Não, absolutamente. Ao fazer com que se apreenda a época como um espetáculo de consumo, o modelo consumista — tornado reflexo — nos imuniza contra qualquer mudança. Aquilo que poderia nos perturbar, vamos experimentar. A ideologia do consumo, a prima-dona, rege a "sociedade de comunicação". E já que se ensinou ao espectador que o mundo é consumível — e não transformável —, as grandes representações que dele são oferecidas serão selecionadas, condicionadas e dimensionadas como produtos.

Quer se trate de astros ou de políticos, de ficções ou de realidades, as mídias satisfazem nos ouvintes/espectadores essa mesma pulsão consumista gerada pela publicidade. A regra foi enunciada assim, desde 1990, por um slogan da emissora radiofônica RTL: "O noticiário é como o café: bom quando é quente e forte". Publicidade ou notícias, tudo é o mesmo estilo, o mesmo efeito de comunicação que visa às vezes a Época, às vezes a Mercadoria, com o propósito de subjugar a atenção coletiva. Ao acontecimento-produto corresponde, sem cessar, o produto-acontecimento. Em outubro de 1999, o Carrefour lançava o slogan que dizia: para "celebrar o fim do século, um período de desconto histórico". Na mesma época, aparecia no metrô esse anúncio "revolucionário": "Terça-feira, 12 de outubro de 1999, a loja "Le Printemps" legaliza o shopping para os homens." A bulimia de informações deve ser saciada, pensam os "jornalistas" que criaram essa necessidade. Sem dúvida, eles deploram, episodicamente, que "informações em demasia matem a informação". Porém, "o público gosta disso". Ele precisa de sua dose, já que foi viciado nisso.

A pulsão consumista exige, em primeiro lugar, quantidade de informações, renovação a todos os dias e horas, numa cadeia ininterrupta de seqüências fragmentadas e ritmadas. O ritmo é, aqui, fundamental, uma vez que dá a ilusão de estar ligado a um mundo em movimento. É também perigoso, porque subjuga o consumidor fascinado, sempre temeroso, em maior ou menor grau, de perder o elo da cadeia que o desconectaria da época. Ficar desatualizado seria deixar de ser real. Um longo dia no qual "nada acontece" é tão triste quanto uma geladeira vazia...

A lógica dos "grandes acontecimentos"

Ainda que sustentada pelo ritmo trepidante e recorrendo-se ao controle remoto, a quantidade de informação corre o risco de engendrar a monotonia. O grande medo das mídias é, como se sabe, que os consumidores "se desconectem". Aí está o papel dos grandes "acontecimentos" que, propícios a desdobramentos, mantêm-nos em suspense durante muitas semanas. Lembremo-nos ao acaso: o Papa em Longchamp, Diana no seu último túnel, o processo do colaborador nazista Papon, o lançamento arrebatador do filme "Titanic", a Copa do Mundo, os abismos eróticos (?) de Clinton, o triunfo (?) do euro, algumas fomes ou massacres aqui e acolá, uma palavra do direitista Le Pen que ainda escandaliza, um choque financeiro que não surpreende mais ninguém, a saudação ao Viagra, uma boa guerra limpa e punitiva no Kosovo, o estouro da bolsa que só tem como parceiro uma explosão aérea, o doping no esporte, a França que consome (enfim!), tremores de terra, tufões e secas, a novela do prefeito de Paris, Jean Tibéri, uma criança torturada. Porém, deixem espaço para o quarto episódio de "Guerra nas estrelas"... Compaixão e diversão são as duas tetas da França midiática.

O que é, pois, um acontecimento? Nesse inventário feito à moda do jornalista Prévert, no qual as realidades cruciais são tratadas como pequenas notícias policiais e vice-versa, só a encenação conta: tudo serve para comover, tudo é banalizado para neutralizar a análise crítica. É o "pronto-para-o-consumo" com o qual o publico não avança de modo algum na compreensão do mundo. Reduzido a uma participação afetiva, habituado, pelo modelo factual, a uma leitura puramente consumidora do mundo, ele espera apenas o drama seguinte nos palcos da época. Porém, espera coletivamente. Esse é o papel do acontecimento: ele faz dos cidadãos um público; porém público que assiste, e não assembléia que decide. A fascinação infindável exercida pela seqüência dos acontecimentos impede, então, não apenas a ação, mas o simples recuo necessário à reflexão. Ainda mais grave é que o fato veiculado pela mídia, tornando-se constitutivo do sentimento de fazer parte da coletividade, obriga insidiosamente cada cidadão a se submeter a ele, sob pena de falta de civismo (viu-se bem isso por ocasião da Copa do Mundo). Ora, submeter-se ao acontecimento é submeter-se à ideologia daqueles que o escolhem e o dramatizam enquanto tal.

É bem verdade que o público é às vezes interrogado: depois de tê-lo feito salivar como um cachorro diante de uma carne, pede-se a sua opinião. Assim lhe é dada a ilusão democrática de que existe enquanto "Opinião Pública". Mas ele é apenas sondado sobre o que lhe foi mostrado, não sobre o que lhe foi escondido. Não há nada melhor para dominar a opinião do que dominar o "real" sobre o qual se faz com que ela reaja, esse real da época, falsificado, dramatizado, inventado de maneira tão catastrófica, dissuadindo a ação dos cidadãos: o sentimento de impotência que lhes causa o panorama de tantos fatos inevitáveis lhes faz crer que, decididamente, nada podem fazer, mesmo nos espaços mais próximos, nos quais poderiam agir ou resistir.

Os fatos produzidos

Nesse grande engodo ideológico, verdadeira lei do sistema interiorizada por todos, os próprios jornalistas são às vezes tolos, imaginam-se "constatando" acontecimentos de que eles foram os promotores ou cenógrafos. Eis, por exemplo, como foi anunciado um filme transmitido pela televisão, em 21 de setembro de 1998, e que todos tiveram que esquecer mais adiante: "Quatro horas de um filme um pouco estático, sem dúvida, porém muito esperado pela performance de seu ator principal (...) E agora, vamos ver em todas as cadeias a cabo (...) Espetáculo irresistível (...) Programa excepcional (...) Versão em vídeo, melhor que o "Titanic" (...) Nesta tarde, às 15 horas, hora de Paris, o mundo inteiro descobrirá (...) É o maior evento de mídia dos Estados Unidos (...) Será a transmissão mais assistida (...) o índice de audiência mais elevado". Essas foram as expressões emitidas pela Rádio France-Inter pela manhã. Tratava-se da transmissão do interrogatório de Bill Clinton sobre suas relações com a senhorita Monica Lewinsky.

Como escapar de tal publicidade? Os ouvintes ávidos, conectando-se ao "acontecimento" farão dele um acontecimento, uma vez que ele será assistido... E os jornalistas concluirão que tiveram razão em anunciá-lo como tal! Eis como esta cadeia de acontecimentos torna-se a única abordagem do mundo, como as mídias suscitam no público a expectativa daquilo que ele não esperava, assim como a publicidade lhe cria a necessidade daquilo de que ele não tinha necessidade. A expectativa do espetáculo é profundamente interiorizada. À pergunta: "Os jornais televisivos são vistos como se vê um espetáculo?", inúmeros candidatos ao vestibular responderam inocentemente: "Não, eles são muito aborrecidos". Como se vê, eles não questionam o espetáculo, mas a informação que não é ainda suficientemente espetacular!

O público percebe muito bem que não é, verdadeiramente, "o povo soberano". Como contrapartida os discursos oficiais puseram-se a exaltar a dimensão cidadã de qualquer coisa. Como é doce sentir-se tratado como concidadão quando não se é mais do que consumidor! No entanto, a lei de absorção dos produtos, dos acontecimentos e de outros espetáculos, aplica-se às novas imagens da cidadania, que nada mais pregam do que condutas de adaptação à época: à "democracia" tal como ela é, à Europa tal como ela funciona, à economia tal ela como se globaliza.

Neocidadania midiática

Longe estão de evocar a liberdade, a resistência, a dimensão crítica do ser-cidadão. O consumidor deve aderir a esquemas consensuais ou se unir a causas (a espetáculos) que não suscitem mais conflitos. A cidadania midiática adora particularmente comemorar — a Grande Revolução de 1789, a Declaração dos Direitos do Homem —, fazer o processo do passado — a França de Vichy — ou festejar o futuro liberado: o terceiro milênio verá triunfar a democracia... porém virtual!. A neocidadania, segundo o modelo da mídia, não passa de uma moda entre outras, um estilo, um prêt-à-porter do político apolítico e visa apenas produzir/consumir acontencimentos-espetáculos de cidadania. As empresas, lembremos, adotaram essa moda para se dizerem "cidadãs" (não desempregando hoje, apenas para não empregar amanhã). Já os eleitos da República só têm como preocupação maior saber qual das estrelas atuais possui "o jeito do tempo" (Patricia Kaas? Estelle Halliday? Laeticia Casta?) e será a melhor "Marianne" do ano 2000. Os prefeitos da França elegeram efetivamente uma top model, em outubro de 1999, como símbolo da República Francesa. Por seu lado, os nostálgicos da Revolução colam nas paredes cartazes de Karl Marx, com a cara cuidadosamente aviltada por rodelas de pepino, para ilustrar a "nova cara" doL’Humanité. Lançados em março de 1999, estes cartazes foram considerados por não poucos militantes como a segunda morte do autor do Manifesto Comunista. É assim que se esvazia o significante do seu significado, para depois se glorificar de ter "comunicado".

Retrucar-se-á que a verdadeira cidadania é, de agora em diante, européia. Eis, com efeito, o tipo de slogan que pretende nos provar isso, lançado no final de 1998/início de 1999: "Eu estou na Europa, logo penso em euro". Esse "logo", eminentemente cartesiano, vale mesmo seu peso em submissão à ordem financeira. Eis um outro (maio 1999): "Na Europa, hoje, votar é existir". Sem dúvida, existir na Europa não passa disso. Tal afirmativa tem todo um ar de lapso! De fato há apelos à existência que só confirmam que você não existe mais. Este, que encerra a existência cidadã na pequenez de um voto sem poder, tem muito com o que desmoralizar um militante desejoso de agir na Europa.

Curiosamente, as classes dirigentes também são abrangidas por essa ampla pedagogia da submissão. É preciso aprender corretamente como servir o sistema que os serve. Assim, elas aplicam a si mesmas, principalmente nas grandes escolas que as formam, processos de auto-condicionamento próprios para aumentar consideravelmente seu desempenho profissional. Por exemplo, um "Forum sobre Carreiras", dirigido a quadros em torno de cinqüenta anos, tinha como tema "Empresa de si mesmo". Judicioso conceito destinado a fazer aprender a viver como uma empresa a serviço da Empresa. Os participantes eram convidados a meditar sobre sua existência segundo o seguinte catecismo: Qual é o meu valor agregado? Fomento suficientemente minha rede de relações? O que pode me trazer o treinamento? Posso fazer-me "caçar"? Atenção ao duplo sentido: "fazer-se caçar " não significa aqui "fazer-se expulsar de sua empresa" — isso seria muito simples — mas fazer-se caçar por um caçador de cérebros! Na selva capitalista, os tigres do managementdevem mostrar pata branca para entrar em um sistema onde poderão depois exibir suas garras. Atinge-se aí um raro grau de interiorização dos modelos a serviço, naturalmente, de um novo humanismo... um humanismo às avessas."

sábado, 5 de setembro de 2009

A Montanha Pariu um Rato ou Tempestade em Copo de Água ou qualquer coisa que fez muito barulho e sem resultados

Há muito tempo que não sentia a emoção de teclar para este efeito.
Alterações pessoais, sobretudo, profissionais, em parte, preguiça, também e, não desprezável, falta de motivação intrínseca ou extrínseca para libertar as ideias na ponta dos dedos.
Quando há vontade de dizer, não é tarde de mais, pelo menos para uma das partes :-), a de quem escreve. E é isso que me devolve a este local.

A ideia primeira, é a de fazer um balanço da política educativa do governo que vai acabar - devo dizer que me enjoei muito cedo e a minha visão, em vez de ser global e abrangente, é apenas factual e pessoal, muito susceptível de conter incorrecções. O segundo intento é ser breve, o terceiro teria a ambição de prever o futuro, mas nem irei tentar.

Passando ao que propriamente fez comichão: não refiro as dores iniciais da alteração do Estatuto da Carreira Docente, porque, pessoalmente, o considerei apenas um ponto de partida, mas que em termos práticos apenas dividiu os docentes em dois grupos: os que ganham mal e os que ganham mais ou menos; o trabalho e a responsabilidade são, na prática, idênticos para os docentes de primeira e de segunda categoria; os de terceira categoria (os eventuais - que só são professores às vezes e adquirem traquejo em "Call-Centers") não são considerados porque, em termos políticos, ainda não fazem parte do sistema educativo.

Do que me fez dar o nome a este post, refiro dois aspectos, paradigmáticos.
Começo pelo mais antigo, que já vinha do concurso de docentes de há três anos atrás e que se repetiu e agravou neste último concurso, aparentemente válido apenas para quatro anos, mas vitalício, em caso de receio de pior colocação ou interesse pessoal da parte dos docentes colocados: os professores dos Quadros de Zona Pedagógica, integrados em Quadros de Escola, com mais tempo de serviço, acabaram por ficar mais longe da residência familiar neste último concurso, com consequências para toda a carreira - exemplifico: eu, com mais idade e mais tempo de serviço fui colocado num Agrupamento sedeado a trinta quilómetros da minha residência, mas com escolas até cerca de setenta quilómetros de distância; outros colegas, colocados posteriomente, com menos tempo de serviço e sem colocação garantida, preencheram as vagas entretanto criadas... nada contra os colegas, tudo contra o sistema que os tornou Quadro de Agrupamento, para os quais concorri nas primeiras prioridades, e para os quais deveria ter prioridade - pense-se: esses colegas não serão opositores aos próximos concursos por se encontrarem satisfeitos com a sua colocação, logo não abrirão vagas para esses Agrupamentos; consequentemente esses colegas ficarão sempre melhor colocados que eu, que os precedia na lista de colocação. GRAVE: a resolução deste problema era óbvia há muito tempo para sindicatos, Directores e Órgãos de Gestão, porque não se aplicou?

Segunda questão: muito mais mediática, mas muito menos relevante: o processo de avaliação dos docentes. Falo do modelo "simplex", que já foi prorrogado para 2009/2010. Será que difere muito do antigo modelo de avaliação? Não do "complex", que levou ao "simplex", mas do outro anterior, que teve sucesso durante muitos anos (Tomo como referência a avaliação de "Bom", para a qual não existem quotas.) Os docentes contratados continuam a ter que apresentar um relatório crítico (portefólio....ou qualquer outro nome) no final de cada ano lectivo, para que não suceda qualquer impedimento à continuação na carreira (de contratados); os professores dos quadros, em vez de apresentarem um relatório único até sessenta dias antes da transição ao escalão remuneratório seguinte, têm que apresentar um relatório crítico (portefólio....ou qualquer outro nome) a cada dois anos. É óbvio que isto abrange a esmagadora maioria dos docentes. Os corajosos, inconscientes, ambiciosos, ou com muito tempo livre, deverão pretender uma avaliação qualitativa de nível superior - acho muito bem - mas, como balanço de primeiro ano para quem o fez, poderá não valer a pena, por apresentar um grau de exigência tão elevado.

Resumindo, até na avaliação está quase tudo na mesma...

O rosto da ministra irá mudar, é certo, mas serão as mudanças visíveis? Ou ir-se-á assumir frontalmente que as "tempestades" na educação não passaram de medidas economicistas e o próprio Ministério das Finanças irá assumir a tutela da educação?

terça-feira, 21 de abril de 2009

Meu Filho, Meu Herói

Nunca, como hoje, a imagem pública de cada indivíduo teve um peso tão grande. Não falo de concepções baseadas numa vida de trabalho, ou na sua prestação enquanto ser humano. Falo mesmo do carro que conduz, das roupas que usa ... e tudo começa com a auto-projecção: lembro um anúncio de leite já antigo, em que uma rapariga de muito boa estampa física assume - "Se eu não me preocupar comigo, quem se preocupará?" - é isto mesmo, cada um trata de se promover a si próprio, de se vender.
E infelizmente os filhos, muitas vezes, fazem já parte deste "marketing" pessoal. Não são só crianças iguais a todas as outras, são os melhores de todos.
Certo, isto não está bem. Mas tentem pensar ao contrário. Numa sociedade altamente competitiva, a auto-estima de grande parte dos cidadãos, mesmo conduzindo carros de alta cilindrada e de último modelo só se aguenta em valores aceitáveis se estiverem mesmo convencidos de que, de facto, são bons. E voltamos aos filhos: nada como um "rebento" precoce e altamente dotado - aos olhos dos pais -, para os convencer de que são bem sucedidos, mesmo com pouca interferência educativa na vida dos filhos: escola a tempo inteiro, piscina, ballet, karaté... banho, jantar e cama.
Não vou mais longe.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Argumentos de cinema (título enganador)

Tenho ouvido, tenho sentido, tenho criado alguns silêncios em redor da minha presença. Levei bastante tempo a compreender - a sensibilidade pode ser pouca, mas a inteligência é quanto baste.
A minha actual condição (excepcional), por pertencer (...e apenas este ano) a um Conselho Executivo, tem desenvolvido um "falar" a meu respeito, absolutamente normal, pelos aspectos positivos e pelos menos positivos. Achei que por por ter aparecido de um entre iguais, ser uma função de duração muito limitada, me aliviariam de alguns constrangimentos e falatórios. Aliás, há quem não me considere habilitado a realizar qualquer acção ou a decidir qualquer coisa... refiro-me em particular a alguns auxiliares: quando a primeira cara do Conselho Executivo que aparece é a minha, perguntam pelos restantes elementos - agrada-me, livra-me de dizer que ainda não sei e de ter que descobrir a solução a curto prazo.
Primeira avaliação do cargo: a ideia agradou-me pela possibilidade de intervir naqueles aspectos que poderiam ser melhorados ou corrigidos e que estavam identificados. Redondo engano. Começo pela parte fácil: quando se espreme uma semana de trabalho num Conselho Executivo, (a perspectiva é alargada - conversei com colegas de outros agrupamentos), não sai sumo de um fruto doce, não sai nada - sobra a sensação de não se ter produzido nada produtivo, excepto quando o tempo é dedicado a projectos específicos (é comum a colegas de Agrupamento e de outros agrupamentos).

Esta prosa surge a propósito de uma descoberta, ou seja, de um aviso de uma colega: descobri que há outro Bruno com as minhas funções, que terá que ser um "clone" (inventado - um Bruno inexistente ) meu, que não age, porque alguém não deixa, que faz o que alguém manda para se segurar ao lugar no futuro próximo ... Diz uma coisa e depois faz outra...
Pum!!! Eureka!!! Depois das confissões de uma colega amiga que preferiu não assumir a questão publicamente, cheguei a uma conclusão: vou continuar a fazer exactamente como tenho feito.
-- É verdade, nunca se agrada a todos, mas tenta-se. E todos sabem que aquilo que tem que ser dito, é efectivamente dito, "chova onde chover".
Isto pode levar à conclusão de que aquilo que não me é dito directamente, ou não é importante,
ou há falta de confiança, que tenho tentado lançar em todas as direcções (umas mais que outras...). A minha avaliação no presente ano é o mais pequeno dos meus problemas, SIADAP2, alguém conhece?
Ainda acerca da minha avaliação, como já disse atrás, noutro post, foi-me, uma vez, claramente dito, na formação inicial, que, como professor, eu não era igual aos outros, mas a dúvida final apenas se prendeu com a nota a atribuir (tive uma nota boa...no fim).... muitos anos depois, uma colega da professora titular de turma, onde fiz o estágio final, me perguntou quantos anos tinha levado para conseguir trabalhar bem, dei apenas uma resposta amiga (porque apesar dos "desdizes" estamos sempre a protegermo-nos uns aos outros) - é preciso tempo e confiança, de colegas, pais e alunos. Acrescentei que continuava a aprender todos os dias e a estar atento ao que faço e ao que observo nos outros.
Estou para aqui a escrever, mas cheguei à conclusão de que pouco tenho contribuído para o argumento (desculpem, título deste artigo). No fundo isto pode ser resumido em poucas palavras. Somos severos críticos, quando não estamos implicados. Somos muito tolerantes e permissivos quando estamos implicados.
Ligado a argumentos de cinema? Sim e sempre, na nossa realidade. De um simples movimento, quem queira, consegue extrair conclusões ilimitadas. Já que gosto de ficção, vou apresentar uma possibilidade, e como português, se tiver um bocadinho de picante, melhor.
História inventada:
O João era professor numa escola, numa escola das novas, que a Câmara vai construir, com sete turmas de primeiro ciclo e três de Jardim de Infância. Era professor de uma turma de 22 alunos, dois dos quais apoiados a tempo parcial por uma professora de Educação Especial. (não falo de traços físicos porque na maioria das vezes até são pouco significativos). João e Maria (acabámos de baptizar a professora de Educação Especial) trocavam com frequência opiniões, materiais, perspectivas acerca dos alunos. Ninguém tem dúvidas de que no contexto desta troca de informação, eram apresentadas visões pessoais sobre diversificados assuntos. Assume-se o facto de uma conversa puramente técnica durar trinta minutos, mas estarem em discussão durante sessenta minutos.
Que representa isto?
- Manel - quero lá saber!
- Margarida - dão-se bem e os alunos têm evoluído.
- Mário - dão-se bem os dois e o Manel gosta de ter a Maria por perto...
- Manuela - algum de vocês conhece a mulher do João? Tem um feitio complicado...
- Nuno - ... e a Maria tem um feitio e uma paciência infinita, além de ser o número do João... já falei demais.
... isto leva a múltiplas conversas particulares, e o "acrescenta um ponto" aplica-se a todos os comentários que vamos, naturalmente, proferindo.
Estes comentários, críticas, "tesouradas" não significam que não se gosta da pessoa, nem sequer do trabalho que realiza, porque, se for necessário, até poderá ser a primeira a pessoa a oferecer-se para ajudar. -- é muito português.
O que quero deixar, para bom português que não lê, escreve, vê filmes decentes, vai ao teatro... é que tomem a consciência de que o resultado dessa situação (não posso chamar defeito) é a existência de uma maior tendência para introduzir factos onde apenas pode haver especulção.
(Não acuso qualquer falatório a meu respeito, profissional ou pessoal, nem de pessoas próximas, reflicto apenas sobre aquilo que é comum no nosso país).
Agradeço encarecidamente que discutam esta problemática.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Efeitos Educativos de um Mundo Global

Todas as pessoas (pessoas, não falo dos animais iguais a pessoas, eh, eh), não precisam de estar sequer muito perto da educação, têm a noção clara de que uma das principais estratégias de aprendizagem é a imitação: filhos imitam os pais, alunos imitam os professores, amigos são iguais aos amigos... é mais ou menos consensual, excepto quando se procura ser exactamente o contrário (mas não é por aqui que quero ir).
E num mundo global, em que tudo se sabe por não se poder fugir ao que não se quer saber, por razões de auto-preservação, aprende-se a seleccionar; e num mundo social, onde ninguém quer estar isolado, aprende-se a ser semelhante àquilo que agrada aos cinco (ou seis) sentidos. É a música e os ídolos decadentes, é a cultura do corpo... é-me difícil arranjar um exemplo mediático, relacionado com a escola e a educação (aceito sugestões) que agrade a uma maioria das crianças...
Há ainda o desporto, razão - saúde. Começo pelo futebol: o incontornável CR7, que não sei se sabe ler fluentemente, não sabe expor ideias quando fala, é genial a jogar à bola, tem muitas namoradas esculturais, mas que se embebeda, que contrata prostitutas, conduz em excesso de velocidade e tem montes de massa. É um dos grandes modelos da população escolar. As raparigas: a Naide Gomes, trabalha que se farta, consegue muitos bons resultados, mas poucos ligam, além de que não deverá acabar a carreira rica.
Falemos de outras actividades desportivas, a Natação por exemplo. Tenho dois filhos que nadam duas horas por dia, cinco dias por semana, são alunos suficientemente bons para o ensino que têm, (elá!!) e que adoram a Natação; aliás os amigos são os da Natação e só pontualmente os da Escola. E para esta minoria - quase todos alunos acima da média - quem é o modelo? Presentemente, e mesmo antes dos Jogos Olímpicos, o Michael Phelps, que já vai com treze ou catorze medalhas olímpicas e ainda poderá subir a contagem daqui a três anos, ainda tem idade para isso. Neste belo pano caiu a nódoa e descobriram-se outras antigas: fumou droga e foi apanhado com excesso de alcóol no sangue enquanto conduzia, com dezanove anos.
É imprevisível a consequência para bons alunos, aplicados, sem muito tempo para televisão ou jogos de computador, porque treinam Natação todos os dias, a informação, o conhecimento de que o seu modelo, o super-atleta, que come mais que a maioria, que treina mais que a maioria, modelo internacional de virtudes... continua a ser imbatível, mesmo bebendo em excesso e consumindo droga. Ninguém liga ao facto de ter uma compleição física ímpar, com mais de um metro e noventa, de ser uma excepção, como a é o CR7 - todos podem ser iguais aos seus ídolos nas partes fáceis: nos comportamentos incorrectos.
Do outro lado está muito trabalho, que ninguém quer...
Que pode ser dito aos nossos alunos, aos nossos filhos? Talvez que não queiram ser muitos bons em nada!!! Porque nestas condições estamos no trapézio sem rede...
Tenho pena, mas atrevo-me a utilizar o termo "censura", apenas porque já não há limites naquilo que é mostrado, nesta sociedade tudo é exposto até ao cansaço, poderei chamar a esta forma de informar, "pornográfica"?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Por que quis ser professor?

Muitas vezes não sei. Outras vezes penso que, por masoquismo, ou por uma promessa qualquer que a minha memória não reteve.
Mas, em momentos muito concretos e muito bem definidos, em que todas as opções são postas em causa, existe uma ajuda infalível: os nossos alunos ou ex-alunos.
Já comecei e vou até ao fim.
Há uns anos atrás, depois de bastantes anos de deambulações por apoios educativos (os antigos), da coordenação de apoios educativos, de escolas de ensino especial... (sempre sem turma), depois de um estágio pedagógico (na minha formação inicial) que vincou bem a minha diferença em relação ao "típico" professor do 1º ciclo ( a nota final não provou essa diferença, e tenho que agradecer à Lurdes e à Maria Antunes o voto de confiança)... finalmente tive uma turma para um ano inteiro.... um 1º ano, ano em que nunca tinha estagiado, que pouco estava relacionado com as formações mais recentes....que me angustiou, de início, mas logo me protegi: de onde vêm? Do Jardim de Infância. O que têm trabalhado? .... entre muitas coisas, histórias... e são seres altamente empenhados em aprender aquilo que acham que a escola lhes vai ensinar em quinze dias....
Obviamente que é mais duro... particularmente quando não se é um "cara de pau" como eu não sou - - consequência nas cabecinhas: podemos brincar....a escola é brincadeira - - - e mantenho - - a escola também tem que ser brincadeira - - se não, não faz sentido que seja escola a 100%.
Estas emoções fortes são como as cerejas lavadas: nunca se arranca só uma.
....
Queria falar de:
Hoje, por questões administrativas, um ofício que me foi endereçado para a escola onde estive há dois anos lectivos atrás, relembrei porque gosto de ser professor do 1º ciclo: casualmente, no intervalo, reencontrei parte da minha antiga turma: SENTI AMOR E CONFIANÇA; das críticas (longínquas, de que andavam demasiado confiantes, de que a escola não era um local de trabalho... digo apenas, que depende da perspectiva que se tem do que é escola (ATENÇÃO PORQUE A ESCOLA DE HOJE É MUUUUIIIITOOOOO DIFERENTE DA ESCOLA DE HÁ 20 ANOS ATRÁS).
Mas, o mais importante: um aluno, que não consegui identificar disse: - professor, temos saudades das tuas histórias.... - este facto irá perseguir-me por muito tempo, as crianças aprendem com a prática e com os exemplos, porque as histórias são exemplos de vida, quando convicentes. E que a forma como estas histórias são contadas, irão influenciar a sua compreensão e as suas aprendizagens e o seu futuro, não me deixa qualquer dúvida - este meu episódio sucedeu durante a época glaciar em que as carreiras docentes estavam "congeladas".
Vou repetir: "... temos saudades das tuas histórias...", deixa-me o o amargo de boca de que algumas das coisas que já sei, e que lhes poderia ensinar, ficam em "stand-bye"... a esperança de que a titular da turma lhes saiba dar continuidade...
Outro amargo de boca e ainda mais amargo: cada vez mais, o sistema educativo me tira a liberdade de trabalhar de acordo com as minhas próprias características: ou segues o sistema ou és excluído.

A quem me conheça:
Estou quase a aceitar qualquer proposta alternativa de emprego.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fábricas

Hoje o comentário será curto e grosso - ainda no rescaldo da greve de 19/01.
Na rotina das aulas de natação dos meus filhos, que representam mais umas horas diárias de trabalho (por enquanto só para o pai), que vou seguindo com razoável atenção, foi entrando nos meus ouvidos e atenção (muito impermeáveis) uma conversa sobre a avaliação dos docentes, conversa mantida por duas docentes; entrei na conversa, participei, sempre com uma perspectiva moderada, tentando conciliar o inconciliável: a perspectiva do Ministério com o discurso dos professores, repetido por todas as salas de professores do país, herdado por tradição oral e por muitos factos "comuns" pouco questionados - não ponho em causa a inteligência e empenho destas colegas...
Mas fartei-me..., queria ouvir algo novo e nada, os mesmos lugares comuns e provoquei.
Disse que o iria fazer e perguntei (já sabia a resposta) quantas vezes nos últimos quinze minutos tinham falado sobre as suas aulas e os seus alunos... (todos conhecemos a resposta, que tenho vergonha de escrever).
É por esta razão que uma avaliação que seleccione os professores é necessária; é por a educação se ter tornando num processo mecânico e industrial, como o casal Toffler refere - num post bem antigo deste blogue, que a urgência de uma efectivação da avaliação emerge.
O problema é que a avaliação que nos querem impor visa reduzir os custos gerais da educação, quando deveria, pelo contrário, quantificar o quanto seria necessário dar a cada aluno para ter sucesso educativo.
Os modelos propostos lembram estas imagens imortais de Chaplin. (partilhadas no You Tube)


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A força que o querer tem que ter... podia ser uma política educativa comum a vários ministérios (o que vale é que ainda acreditamos em contos de fadas

São demasiadas palavras para um vídeo que "fala por si"; mas as minhas palavras, às vezes vão longe demais...

Estou num período da minha vida em que raramente vejo o que tenho à frente dos olhos: são precisas imagens fortes (quase hardcore) para ver o estado do mundo.
Os telejornais repetem-se e insistem em notícias que nada têm que ver com as dificuldades da família A ou B; referem antes os baixos lucros dos bancos, corrigindo os da banca "com fins lucrativos"; ofuscam-se com o futuro cão da família Obama que poderá latir em português (béu, béu, béu), têm que consultar o dicionário certo; o açougueiro que amputa dedos em tribunal, seria mais mediático se amputasse a cabeça (a que pensa), ou se alguém público fosse efectivamente condenado por pedofilia e condenado à amputação do pénis. Isto sim, poderiam ser notícias com importância ou influência na opinião pública. MAS ESTAMOS ADORMECIDOS, A GREVE NÃO É SOLUÇÃO, A FENPROF JÁ ERA...ENQUANTO NÃO TRABALHARMOS AS TRINTA E CINCO HORAS SEMANAIS NA ESCOLA, A ESCOLA PÚBLICA NÃO VAI MELHORAR, MAS HAVERÁ SEMPRE MUITOS BALDAS CONTRA ESTA INTENÇÃO...
(assobio...)
não era disto que queria falar.
Tive para dar o título idêntico ao do post anterior, mas não apeteceu.
Nesta situação é mais uma mãe (QUE DESEMPENHA TODOS OS PAPEIS NECESSÁRIOS AO FILHO). Isto dava pano para mangas e pêlo para barbas e pêlos nas pernas a muitas mulheres)...
Por muito que me custe entrar em confronto com o Sr. Primeiro Ministro, não consigo deixar de me perguntar se o "choque tecnológico" resolve estas questões.
E pergunto-o de braços erguidos em louvor da importância que atribui à educação nos seus discursos): e pergunto-o com a ingenuidade de quem já lhe deu o voto:
- Como vai funcionar o choque tecnológico com estas crianças e jovens?
... infelizmente desconfio da resposta (até pode haver resposta política), mas o problema é que, na prática, são uma minoria com pouco peso político nos votos.
Costumo ser defensor de resoluções pouco radicais, porque ao mesmo tempo que criam antipatias, criam simpatias.
Mas sem ter consultado, nem de longe, a maioria de todos os colegas docentes informados, estamos contra o seu (do 1º Ministro) choque tecnológico (posso ainda argumentar em sua defesa) a maioria das visitas que realizou, foram antecipadamente preparadas para mostrar sucesso...tem dúvidas disto?).

Eh, pá, o post não era para o Sócrates...

(não era, nem é)

Mas são dois aspectos que se cruzam no futuro (para não falar de outras coisas).
Pergunta simples:
como irá ser executada a promessa do choque tecnológico, utilizando-a também para os alunos com necessidades individuais) - ou por outras palavras, não seria vantajoso moderar o choque tecnológico e melhorar a qualidade do ensino para "todos" os alunos"?

Insisto: esta minha perspectiva não é retórica, muito menos experimental e ainda menos política, esta é uma dúvida de quem conhece o Portugal que as campanhas eleitorais escondem...e à qual a Segurança Social não consegue chegar... basta perguntar...

E mesmo assim: ( o tipo é chato...) de onde veio todo este dinheiro? E por quanto tempo se vai manter? ou terá sido só um show de tv?...


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sózinho ninguém avança.

Tive uma visita ilustre hoje no meu blogue; de alguém que viu sempre primeiro as crianças e só depois o resto do mundo (quando não pensava nas crianças, era apenas para melhorar o seu bem estar). Não preciso, mas faço questão: foi e continua a ser professora do 1º ciclo.
Talvez o vídeo reflicta aquilo que a Rita via antes dos outros todos.
Beijinhos e obrigado pelo exemplo.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Bom Ano de 2009

Saúde, paz, felicidade e estabilidade, para os amigos e para os outros.

sábado, 27 de dezembro de 2008

seca e deserto

Olhei para os últimos posts, estão secos. Tenho que acrescentar algum AV. Mandem-me coisas divertidas.

Docente: emprego ou profissão

Pode ser exactamente a mesma coisa, mas normalmente não é. Como comparação falo dos enfermeiros, acho até que têm os mesmos ordenados que os professores: mas os enfermeiros têm, grande parte deles, dois ou três empregos diferentes; podem sair de um turno de oito horas nas urgências de um hospital e fazer mais oito horas seguintes numa viatura do INEM (aquelas amarelas que passam sempre em excesso de velocidade) - podem andar em excesso de velocidade e acumular vários turnos seguidos. Devem existir estudos feitos sobre esta situação e a sua capacidade de atenção e concentração nestas alturas (os professores não podem dar mais de seis horas de aulas seguidas - deve ser muito mais esgotante que atender doentes). Já não falo dos médicos que andam sempre fora de horas, por acumularem uma bateria de funções em diferentes hospitais, clínicas e consultórios. Mas há que dizer também: os médicos e enfermeiros têm lugares para dormir durante os períodos de trabalho, o que só se justifica por terem turnos sucessivos.
Os professores também podem acumular, tudo bem. Mas os enfermeiros não levam trabalho de casa e os médicos só levam trabalho para casa por pretendem progredir na carreira e receber convites para congressos em sítios interessantes.
Chegado aqui tenho que dizer - conheço excepções a estas situações, bastantes e honrosas.
Excepção ou não, estes profissionais têm uma profissão, são médicos e enfermeiros, ponto final, parágrafo.
E os docentes: sim senhor, podem acumular funções, mas em que horário? uma vez que não trabalham por turnos? Explicações a quem? Se quem os conhece, são os alunos do seu próprio agrupamento, e este trabalho se encontra vedado por lei... é o mesmo que os médicos não poderem atender no consultório, doentes que estiveram no seu hospital... mas adiante: têm que dar resposta a todas as situações que se lhes deparam. Na educação as exigências, para além das aulas: colegas, alunos, pais, departamento, conselho executivo, avaliação... isto, assim, com estas coisas todas, é só um emprego, porque se não for só um emprego, fica tudo maluco...
Relativamente à educação e ensino, talvez se possa actualmente afirmar: não é uma profissão, é só um emprego, porque se fosse profissão, apareceriam outro profissionais para tratar do relacionamento com os encarregados de educação (o que se verifica com os médicos e enfermeiros), haveria outros técnicos para tratar da parte administrativa (o que sucede com médicos e enfermeiros), que tem um peso horário muito alto e ainda haveria alguém para supervisionar o funcionamento disto tudo, esta sim sujeita às pressões tradicionais: as cunhas, os presentes e as pressões partidárias.
Quando me pergunto a razão desta actuação governamental em relação à educação, só posso concluir o seguinte: são o grupo menos organizado das grandes estruturas profissionais; têm uma elevada percentagem de pessoal com idades elevadas; O actual elenco ministerial não conseguiu estruturar e implementar um modelo para as necessidades de registo e planificação nas turmas; é uma classe profissional com muita formação, e por isso, com um conhecimento administrativo e de gestão bem superiores às que revelam os elementos responsáveis por determinadas medidas.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Docente: cientista vs. artista

Li, num site de informação, uma opinião de alguém da hierarquia católica, em que se fazia referência à "arte" de educar, isto em tom de chamada de atenção, sobre a avaliação dos docentes.
Fiquei indeciso por um bocadinho de tempo e na minha cabeça foram-se definindo alguns aspectos, que quero partilhar sobre a dicotomia da educação: ciência ou arte?
Ao falar de educação ou de ensino de que falamos? Penso que se fale de forma mais ou menos consensual na modificação de comportamentos e atitudes, na aquisição de novas habilidades e competências, no alargamento do conhecimento. Há que considerar também a Pedagogia, a Didáctica, a Psicologia da Educação... a Sociologia da Educação, a Axiologia da Educação... estas sim, sem dúvida, são ciências. Considero, também quase como opinião unânime, que os educadores e professores têm um papel importante nestes processos.
Penso que a educação e o ensino têm uma componente artística, que se tem ou não tem, para interligar os conhecimentos científicos das diversas ciências relacionadas com o processo instrutivo e educativo e para os aplicar em novas situações. A esta "caldeirada" tem que se juntar a prática e a experiência.
Será arte ou ciência? Com o desenvolvimento da carreira docente, a prática aumenta e o esquecimento da teoria das ciências relacionadas também aumenta... também aumenta a falta de tempo para reflectir e para a formação..., o que conduz à falta de tempo para "sentir" o processo instrutivo/educativo de forma artística. Talvez aos 65 anos de idade só reste a prática, cada vez menos valorizada. E a prática não é nem ciência nem arte. É apenas experiência.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Mistério da Criação - a propósito do modelo de avaliação dos docentes proposto pelo Ministério da Educação

Iluminou-se uma pergunta à frente dos meus olhos: onde se inspirou o Ministério da Educação para criar o sistema de avaliação que propõe?
Diz-se que é idêntico ao modelo chileno, que dá provas de que não funciona há já alguns anos, mas não creio que tenha sido essa a fonte, pois tenho o elenco ministerial em consideração no que respeita a inteligência.
Mas a minha dúvida mantêm-se: como e de onde surgiu o modelo de avaliação de docentes proposto?
Acrescento ainda: quem (concretamente, em termos técnicos e não políticos) o criou?
Hoje em dia é pouco provável e até pouco científico criar instrumentos ou modelos sem serem fundamentados em estudos, em teorias e investigações e em exemplos concretizados. Por isso é de grande importância conhecer a génese das propostas do Ministério...
Ou será que não se baseou em nada destas coisas?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Renovar o Ensino

Num passeio pela internet passei por um sítio chamado IM Magazine (http://immagazine.sapo.pt/por/index.html). Este sítio procura apresentar lufadas de ar fresco na perspectiva derrotista que quase todos manifestamos relativamente ao futuro, nas suas múltiplas dimensões.
Encontrei uma perspectiva interessante sobre o futuro da educação, como a "teoria da imersão", que desconhecia, a referência à multiplicidade de dimensões da inteligência, quase como oposição à memorização tradicional, a importância das emoções e dos afectos, o papel importante do corpo na aprendizagem formal, bem como a permanência do processo educativo ao longo da vida. para além da referência a trabalhos realizados e a autores.
Este texto é da autoria de Isabel Mendonça, jornalista.

Imersão vs Infecção

Programas inovadores na área de ensino preconizam a aplicação da “teoria da imersão”, contrariando o tipo de aprendizagem convencional (teoria do “ensino por infecção” de Herbert A. Simon). Com base na disseminação de uma enorme quantidade de palavras e fórmulas, para um grande número de pessoas reunidas numa mesma sala, e esperando que algumas dessas palavras e fórmulas possam ser infecciosas e que “contagiem” algumas dessas pessoas, podendo até afectar o seu comportamento futuro, o ensino por infecção baseia a sua avaliação em exames. Limitando-se a testar a extensão dessa “infecção”, faz depender os resultados, em grande parte, na qualidade dos professores e recursos. Contudo, este tipo de ensino raramente desenvolve a capacidade de definir e resolver problemas, a independência de pensamento e a colaboração entre alunos. Os alunos limitam-se a ser informados mas não formados.

As novas teorias de ensino apontam para a implementação da “teoria da imersão” (Simon, 1987). Neste tipo de ensino capitaliza-se a curiosidade natural dos alunos, estimula-se a formulação de questões e definem-se estratégias para responder às mesmas. Os alunos são orientados para analisar, sintetizar, criticar e, sobretudo, para criar e estimular o gosto pelo risco e espírito de iniciativa, aumentando a auto-confiança e elevando o padrão de qualidade da comunicação verbal e escrita. Assim, o aluno acaba por adquirir maior conhecimento do que aquele que recebe, pela pesquisa e envolvimento exigido nos trabalhos práticos desenvolvidos, ampliando assim a sua criatividade e auto-estima, capacidade de análise e síntese num ambiente estimulante de continua descoberta.

Escola do Futuro

Na Escola do Futuro de São Paulo, a escola é “um lugar onde os alunos podem construir os seus conhecimentos segundo os estilos individuais de aprendizagem que caracterizam cada um, onde em vez de filas de mesas e cadeiras ou carteiras, há mesas para trabalhos em grupo, sofás e poltronas confortáveis para leituras, computadores para a realização de tarefas académicas”, diz-nos Fredic M. Litto. Ele defende, tal como a teoria da imersão o faz, que a avaliação deve ser feita não dando ênfase à “memorização de factos ou à repetição de respostas “correctas”, mas na capacidade do aluno pensar e se expressar claramente, solucionar problemas e tomar decisões adequadamente”.

Litto reforça ainda a importância das inteligências múltiplas na formação e avaliação dos alunos, bem como a introdução das novas tecnologias de informação “pela capacidade de estimular eventos do mundo natural e do imaginário de forma a levar o aluno a perceber fenómenos que antes não faziam parte do ensino formal”. Contudo, o académico alerta para o facto de, neste novo paradigma, ser exigido ao professor o papel de “guia, parceiro na procura da informação e da verdade, aumentado a participação activa do aluno”.

Educar emoções

Inspirada pelo princípio de que “o optimismo e a esperança, tal como a impotência e o desespero, podem ser aprendidos” defendido por Daniel Goleman no seu livro “Inteligência Emocional”, em Portugal, a Proformar desenvolveu um Curso de Formação destinado a educadores de infância sob o lema: “Educador: um Modelo de Optimismo”, com o objectivo de reflectir sobre estratégias facilitadoras de um crescimento mais optimista desde as idades mais precoces, encontrar formas conducentes a uma melhor auto-regulação emocional e desenvolvimento de atitudes positivas e de confiança que, ao partirem do formador, consolidem o mesmo espírito na criança. Os destinatários do curso, Educadores de infância e Professores do 1º ciclo do Ensino Básico foram convidados a identificar problemas reais e, de seguida, através do processo de consciencialização, debate, pesquisa e partilha de informação, melhorarem a sua intervenção “promovendo assim, uma Educação de Infância alicerçada numa filosofia de vida positiva”.

“Mais importante do que aquilo que nos acontece é a forma como lidamos com isso”, diz Helena Marujo em Educar para o optimismo. De facto, desde cedo as crianças lidam com a frustração, a decepção, o medo e buscam a segurança ora nos pais, ora nos educadores com quem partilham grande parte do seu tempo. O professor ganha assim um protagonismo fundamental na formação básica dos jovens alunos, na capacidade de transmitir de forma positiva conhecimentos facilitadores de um crescimento confiante.

Educar as Emoções é, também, o que se propõe, há mais de uma década, o Nueva Learning Center em São Francisco. Na aula de “Ciência do Eu”, a matéria de estudo são os sentimentos, desde os próprios, numa perspectiva intrapessoal, aos que decorrem dos relacionamentos, numa perspectiva interpessoal. A estratégia inclui usar as tensões e traumas da vida das crianças como tópicos para a descoberta e trabalho das emoções. Questões como a dor, a segregação, a inveja e os desentendimentos catalizadores de agressão, são dissecados em aulas práticas sempre com o acompanhamento do professor. A Ciência do Eu, é um projecto pioneiro desenvolvido por Karen Stone McCown segundo a qual, “a aprendizagem não acontece isolada dos sentimentos das crianças. A literacia emocional é tão importante para a aprendizagem como o ensino da matemática ou da leitura”.
Nesta óptica, os alunos do ensino secundário elaboram em sala de aula jogos que promovem valores como a cooperação, sendo avaliados segundo o seu papel no grupo e confrontando emoções entre os seus pares. A abordagem estimula a observação não apenas do aspecto emocional, mas igualmente as reacções do corpo às emoções sentidas.

Na Austrália, em Sidney, temos outro bom exemplo. Foi criado um programa escolar pela Life Changing Experiences Foundation (Fundação das Experiências de Vida para a Mudança), que se denomina “Potentialize” (Potenciar), com diferentes módulos para crianças dos 4 aos 12 anos, que tratam de tópicos como o sucesso pessoal, auto-estima, obesidade, drogas e álcool, ultrapassar obstáculos, gestão de tempo, perseguição de objectivos, entre outros. Aulas como “Eu gosto de mim”, “Construtores de confiança”, “Menos Stress” ou o “Poder de escolher” traduzem bem os alicerces dos programas desta escola, desenhados por professores reconhecidos com o Prémio Nacional de Excelência no Ensino (National Excellence in Teaching’ Award), psicólogos ou gestores de sucesso.

O Papel do Corpo

Também o corpo, começa a ser olhado de forma diferente e enquanto canal privilegiado de transmissão e recepção do conhecimento. A dimensão corpórea, bem como a estrutura do espaço escolar, são novos paradigmas para uma nova era no campo do ensino. Com base nestes pressupostos, foi desenvolvido, no Centro de Formação do Concelho de Loulé, um trabalho de investigação sobre “Expressão Corporal na formação contínua de professores do ensino secundário”. O curso fez incidir o seu conteúdo na identificação e integração de fórmulas para minimizar o mal-estar do professor e a capacidade deste intervir junto do estudante, por forma a obter da sua parte uma maior motivação perante a situação de aprendizagem. Esta aposta numa formação alternativa para professores, levou à colocação em prática, na sala de aula, de técnicas de relaxamento, na utilização de actividades expressivas, nomeadamente dramatização de conteúdos e partilha de emoções, aprendidas durante a sua formação. Por fim, e não menos importante, concluiu-se que os “dilemas relacionais” dos professores relativamente à indisciplina, se resolviam com a introdução de estratégias expressivas e com atitudes decorrentes de um maior bem-estar do próprio professor, havendo uma maior motivação e conforto na aprendizagem por parte dos alunos.

Do corpo ao espaço

O Departamento de Educação Inglês do Reino Unido, decidiu apostar fortemente no programa “Building Schools for the Future”. O desafio consiste na reabilitação e renovação de todo o parque escolar do ensino secundário, no sentido da criação de espaços de aprendizagem inspiradores e completamente disponíveis para serem usufruídos por todos os cidadãos da comunidade. Neste programa, toda a comunidade é convidada a participar. Assim, podemos encontrar no site da BSF mensagens convidando alunos, pais, funcionários, docentes e autoridades locais a darem o seu contributo de forma pró activa. Tal é alcançado nomeadamente, pela promoção de debates sobre o que deve ser uma escola moderna, como deve ser construída, o que deve oferecer para que se torne mais atractiva, onde devem ser aplicados os fundos e quais as áreas que carecem de mais trabalho e atenção. O objectivo está bem definido: uma profunda mudança na experiência educativa, quer para os alunos quer para os professores, e ainda uma forte aposta na aprendizagem ao longo da vida que se estende a toda a comunidade sem excepção.

domingo, 30 de novembro de 2008

Professora, Professor, qual a sua opinião sobre:

Não sou fundamentalista, nem acho que as manifestações públicas de desagrado quanto a várias coisas, algumas pouco definidas, sejam a melhor "publicidade" possível ou desejável.
Nem é objectivo deste blogue defender os professores e as suas virtudes, assim como não se pretende evidenciar as suas fragilidades.
No entanto chegou-me um email, que apesar de excessivo, aponta as causas do mal-estar da classe docente de uma forma clara, mas que deverá ser analisado apenas de modo compreensivo, não interpretativo (aqui a história poderá ser diferente...) e que reproduzo abaixo.

Professora, Professor, qual a sua opinião sobre:
a. Coordenação de Departamento não remunerada;
b. Aulas de apoio não remuneradas;
c. Aulas de substituição não remuneradas;
d. Direcção de Instalações não remunerada;
e. Desenvolver actividades extracurriculares não remuneradas.
f. Visitas de estudo não remuneradas.
g. Reuniões fora de horas não remuneradas.
h. Reuniões à noite, fora de horas.
i. Ficar fechado na Escola horas sem fim, sem condições de trabalho, em vez de estar em casa a preparar as aulas.
j. Estar na Escola à espera que um colega falte - apontem uma outra profissão onde se passe o mesmo.
k. Que a Sra. Ministra obrigue a trabalhar mais horas e o agradecimento passe apenas por um obrigado cínico no Parlamento.
l. Que um colega de outra disciplina assista às nossas aulas.
m. Que as notas dos alunos que não querem estudar o impeçam de progredir na carreira.
n. Com o congelamento dos vencimentos e progressão na carreira.
o. Que a maternidade, morte de um familiar próximo o impeça de progredir na carreira.
p. Com o Estatuto do Aluno.
q. Com a diminuição da autoridade dos professores.
r. Com os insultos e agressões por parte de alguns alunos e respectivos Encarregados de Educação.
s. Com a destruição da Escola Pública.
t. Com a divisão da carreira em duas: titular e não titular colocando Professores contra Professores.
u. Com as cotas na progressão.
v. Com o péssimo ambiente de trabalho que se está a instalar nas Escolas.
w. Com o fim dos destacamentos.
x. Com os concursos por quatro anos.
y. Com o trabalho excessivo.
z. Com a permanência na Escola de 40 horas.
aa. Que os Professores se substituam aos Pais e que os Pais só sirvam para procriar.
bb. Que Professores tenham 10 Turmas, mais de 250 alunos e 1500 testes para corrigir por ano, para não falar dos trabalhos.
cc. …………………………………………

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um Choque Tecnológico

Não sou adepto do arremesso de ovos, mas quando a tecnologia falha, continua a ser um recurso eficaz - fica por esclarecer qual o significado dos ovos: se o de um filho que não se quer que nasça, ou que se desenvolva, se apenas para ofender ou agredir... nem me interessa muito.
Sou é adepto das verdades que os mais recentes alvos de ovos se recusam ver.
Uma dessas verdades é o apregoado, como bandeira propagandista, "Choque Tecnológico". Explico: se numa sala de aulas já não cabem os alunos de uma turma, facto facilmente provado pelos contínuos problemas comportamentais criados, muito mais dificilmente caberão os mesmos alunos, mais um computador para cada dois alunos, o computador do "stor", o projector vídeo (eminente alvo número um do treino de tiro dos alunos) e o quadro interactivo.
É previsível que o "choque tecnológico" a médio prazo amplifique a falência de um sistema ou que prove a falta de conhecimento da "escola profunda" por parte de quem decide.
Se o "choque tecnológico" em curso sucedesse no automobilismo, o resultado seria este: mecânicos desajeitados a manusear ferramentas demasiado poderosas.


quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As cascas da cebola - como têm os ogres - dito pelo Shrek acerca de si mesmo, ou a verdade verdadeira

De vez em quando sinto-me parte da família de um aluno, quando falo com a família sobre o processo educativo. Há famílias com quem os professores se sentem a "trabalhar em equipa", ou seja, apesar de não existir coincidência de metas educativas e mesmo, em muitas ocasiões, nas metodologias e estratégias seguidas na aula e ainda menos na forma de gerir comportamentos, sente-se que as divergências são apenas processuais e tolera-se sempre quase tudo.
No outro extremo, o professor é o vendedor que tem que "impingir" a importância da escola a determinados encarregados de educação.
São muitas já as famílias que se enquadram nestes dois grupos e estas são as "fáceis", mesmo sabendo que os professores gostam de representar um dos papéis e não se identificam com o outro - de certeza que não há dúvidas.
No meio há uma imensa maioria, só silenciosa quando perde a razão em praça pública; um exemplo: (já estou a esfregar as mãos de satisfação) no início de uma reunião de pais, a primeira intervenção de uns pais (pai e mãe presentes) apontou uma arma de destruição maciça a um aluno de etnia cigana - fez e disse *#?&%$# - ok, o menino não andou no jardim de infância, não sabe estar em grupo, mas para a sua família a Escola é a altura de aprender tudo isso... ok, o menino dá chatices no comportamento...
Alargada a discussão, a medo foram apontados outros meninos problemáticos, inicialmente sem nome, estando o menino de etnia cigana no centro de todas as acusações. Por não ser recém-nascido escolhi o momento certo para perguntar o nome dos outros meninos problemáticos. Tive os nomes como resposta, alguns encarregados de educação não voltaram a abrir a boca e o menino de etnia cigana foi deixado definitivamente em paz.
Conclusão número um: na Escola os pais projectam muitos problemas psicológicos próprios que deveriam ser deixados de fora.
Conclusão número dois: a inquisição continua a existir, no séc. XXI.
Conclusão número três: os pais fazem falta à escola, ou como disse alguém famoso que não recordo e por isso não cito, apenas refiro: os amigos devem estar próximos de nós, para podermos contar com eles quando necessário; os inimigos deverão estar ainda mais perto, para os podermos controlar. - Obviamente não estamos a falar de educação, mas quase parece.
E todos os outros?
Resposta: Não têm tempo, está sempre tudo bem com os seus educandos, têm auto-conceito académico muito debilitado, confiam na perspectiva de outros (mais um post no futuro - que se desenganem aqueles que julgam que estes elementos não se preocupam com os seus educandos).
Até.

sábado, 8 de novembro de 2008

todos diferentes, não, todos iguais - O Erro da Escola

A incapacidade de atender individualmente cada aluno, de disponibilizar a cada aluno aquilo de que efectivamente precisa, tem conduzido, particularmente na vigência deste elenco ministerial à verdadeira "massificação" do ensino, que traduzido em bom "professorês" significa igual para todos, pela incapacidade real, devido a situações também reais (de que poderei falar noutros posts) de atender as necessidades e especificidades de cada aluno.

Da Pixar, logo plagiado, mas disponível no site "You Tube" um bom exemplo do resultado da educação nas nossas escolas.